Não vale a pena perder muito tempo com o pitoresco no âmbito processo eleitoral em curso no PSD. As coisas são o que são, o tabuleiro é o que é, e querer julgar este ou aquele candidato com base no perfil, mais ou menos irrecomendável, deste, ou daquele, apoiante é um mero exercício de desonestidade intelectual. Todos tem, sem excepção, os seus Menezes, Jardins, etc e tal, e é impossível não os terem, com estas regras, com este tabuleiro. Não perceber isso, é não perceber nada.
Dito isto, o que conta, para além da pose, do sound-byte, do circo é a substância e a capacidade de resistir ou não às facilidades de uma demagogia barata e inconsequente.
Dois exemplos, finanças e justiça.
Sobre as finanças, o extraordinário acto de fé demonstrado por Passos Coelho segundo o qual não será necessário um aumento de impostos, aconteça o que acontecer, é a todos os títulos revelador. Pelo que é dito, e pelo que fica por dizer. Porque sendo um acto de fé, é uma fé baseada - é bom recordar - numa equipa liderada por alguém, Nogueira Leite, cujo momento alto na carreira política - antes de ter vislumbrado em Passos Coelho um novo messias - foi ter sido secretário de estado do… Eng. Guterres, e porque passa, aos portugueses, a imagem de que qualquer rightsizing da economia não implicará necessária e obrigatoriamente sacrifícios e cortes que tocarão a todos (quanto mais não seja porque o Estado Social tal como era encarado é algo que já lá vai…). Passar a ideia de que por quaisquer artes mágicas se consertam as contas públicas, de forma mais ou menos indolor ,é algo que - nesta altura do campeonato - já nem o PS de Sócrates se atreve a fazer. Passos Coelho fê-lo, ponto, Rangel não.
Sobre a justiça, é verdade que Pinto Monteiro é o que é. Mas pensar que a simples remoção do pitoresco personagem do cargo resolve por si alguma coisa, é - em si mesmo - todo um retrato e todo um programa. Os problemas da justiça são demasiado vastos, demasiado complexos, e estão muito aquém e além das manifestas insuficiências amplamente demonstradas por Pinto Monteiro. Mais do que mandar o senhor embora convinha é tomar as providências necessárias para que no futuro jamais volte a ser possível alguém com o perfil, ou falta dele, de Pinto Monteiro voltar sequer a ser ponderado para cargos desta envergadura. O PSD cavalgar numa remoção de Pinto Monteiro, a seco, é transformar o caso, o cargo, e a conjuntura envolvente, numa situação estritamente política, com tudo o que daí advém. Esteve pois mal - outra vez - Passos Coelho, porque a questão não é quando Pinto Monteiro sai, mas sim como se evita - em nome de ‘consensos’ que outro igual lá vá parar. Dito isto, e sendo pelas actuais regras do jogo a nomeação do PGR um assunto exclusivo de Belém e de São Bento, o estrito bom senso recomendaria um outro tipo de abordagem - uma que envolvesse ou o Conselho de Estado, ou uma que envolvesse uma mudança prévia das regras e parâmetros de nomeação. Enfim.
Quanto ao resto, à paisagem - a vaidade sempre um pecado favorito. Não há milagres, não pode haver. As coisas ainda vão ter que ficar pior, antes de ficarem melhor. É a vida.



